Um bate-volta ao Vale do Loire

O tempo passa, e já faz um bom tempo que estivemos no Vale do Loire. Mas parece que foi ontem, tamanha a intensidade da experiência de conhecer um lugar como esse. Castelos sempre foram algo fora da realidade dos brasileiros e todas as imagens construídas até então no nosso imaginário vinham dos livros de contos que lemos na infância. Corta. A anos-luz daqueles dias de repente nos encontramos dentro de um carro percorrendo estradas perfeitas numa região que abriga mais de 300 (!) castelos. Se por acaso você achar que viu um deles assim de passagem, no final daquele caminho, entre duas árvores, pode ter certeza – era mais um castelo.

Mais um château num vilarejo qualquer

Mais um château num vilarejo qualquer

Chegar à região do Vale do Loire a partir de Paris é muito fácil. É possível contratar um passeio de um dia e não se preocupar com nada, ou alugar um carro e sofrer um pouco com o trânsito da saída da cidade, ou ainda pegar um TGV (trem de alta velocidade) até Tours, uma das maiores cidades do Vale, e lá alugar um carro ou comprar um passeio. Nós ficamos com a última opção: fomos até Tours de TGV, alugamos um carro e fizemos os passeios por conta.

Nós só não sabíamos que estávamos fazendo tudo errado. Um bate-volta ao Vale do Loire é possível, mas vai apertar o coração. A região pede ao menos três dias para ser descoberta e apreciada com calma, como um bom vinho.  Não é sobre conhecer o interior dos castelos; é sobre hospedar-se num deles, passear sem pressa pelos seus jardins, encantar-se com os vilarejos tranquilos, saborear os vinhos e os queijos, até mesmo passear de balão! Romantismo nas alturas, em todos os sentidos.

Mas, de qualquer forma, foi mágico conhecer esse pedaço da França. Voltaremos um dia, claro. Por enquanto, segue uma amostra dos castelos espetaculares e de uma cidade que visitamos por lá.

Château de Chenonceau

Um lindo e gigantesco túnel verde, ao qual é impossível ficar indiferente, é a porta de entrada para os domínios desse castelo. Tudo começa com uma agradável caminhada após o estacionamento.

Túnel verde dá as boas vindas em Chenonceau

Túnel verde dá as boas vindas em Chenonceau

E aos poucos ele se revela.

A primeira visão do Château Chenonceau

A primeira visão do Château Chenonceau

Sua silhueta branca debruçada sobre o Rio Cher é conhecida: Chenonceau é o segundo castelo mais visitado da França, perdendo apenas para Versailles, e também um dos mais lindos que já tivemos o prazer de conhecer.

Château de Chenonceau

Château de Chenonceau

É também chamado de Castelo das Sete Damas, pois sua história é a história das mulheres que o construíram, o mantiveram e o protegeram, sendo as suas grandes protagonistas Diane de Poitiers (nobre, amante e grande amada do Rei Henrique II) e Catherine de  Médicis (a esposa pouco amada do próprio). Sim, este castelo presenciou uma história de triângulo amoroso digna de filme, repleta de muito amor, admiração e ódio, que somente terminou com a morte do Rei e expulsão da amante pela então vingada Rainha. E, nesse filme, a heroína foi a amante.

Hoje, a história é contada por cômodos ricamente decorados, inúmeras obras de arte (que incluem nomes como Tintoretto, Veronese, Poussin, Van Dyck) e raríssimas tapeçarias de Flandres do século 16. Os modernos arranjos de flores e ervas frescas não passam despercebidos, revelando o capricho na manutenção do local.

O Quarto das Cinco Rainhas, com suas paredes recobertas por tapeçarias flamencas

O Quarto das Cinco Rainhas, com suas paredes recobertas por tapeçarias flamencas

O quarto preto e tétrico da Rainha Branca, Louise de Lorraine - a cor do luto real era o branco

O quarto preto e tétrico da Rainha Branca, Louise de Lorraine – a cor das vestes do luto real era o branco

A Sala de Estar de Luís XIV

A Sala de Estar de Luís XIV

O Quarto de Diane de Poitiers, com um retrato de Catarina de Médici sobre a lareira

O Quarto de Diane de Poitiers, com um retrato de Catherine de Médicis sobre a lareira

Cozinha de castelo com temperos frescos - só na França!

A cozinha localizada no nível mais baixo do castelo, repleta de temperos frescos

Os bem cuidados jardins convidam a um passeio sem pressa, admirando as vistas do castelo, do rio e dos bosques ao redor.

O jardim intimista de Catarina de Médici, visto de dentro do castelo

O jardim intimista de Catherine de Médicis, visto de dentro do castelo

O Jardim de Diane de Poitiers, em estilo italiano

O jardim de Diane de Poitiers, em estilo italiano

Ao final de uma visita não poderia faltar a tradicional lojinha e um pequeno mas interessante museu de cera.

Museu de Cera em homenagem às damas de Chenonceau

Museu de Cera em homenagem às damas de Chenonceau

Se você optar por comer por lá, opções não faltam: restaurante, café, casa de chá, creperia e até uma área de piquenique para um belo dia de primavera.

Área ao ar livre de um dos restaurantes do castelo

Área ao ar livre de um dos restaurantes do castelo

O lugar é lindo… Merece uma ida com tempo.

Château de Chambord

Tudo o que envolve o Château de Chambord é grandioso. O maior castelo do Loire está localizado dentro do maior parque florestal fechado da Europa, e contemplá-lo causa até uma certa perplexidade: essa verdadeira obra arquitetônica, que perde-se em números (440 quartos, 84 escadarias, 282 lareiras – aproximadamente), foi construída para ser apenas uma residência de caça para o Rei François I (!).

Château de Chambord - inspiração para o filme A Bela e a Fera

Château de Chambord – inspiração para o filme A Bela e a Fera

Justamente por ser concebido para curtas estadias do Rei com sua corte (cerca de 2.000 pessoas), não carrega consigo tanta história quanto Chenonceau. Sua decoração também não impressiona tanto. Sem dúvida, seu maior atrativo é a arquitetura: o estilo renascentista, o “skyline” riquíssimo em detalhes (construído para lembrar Constantinopla), a famosa escada em dupla hélice (onde duas pessoas podem circular ao mesmo tempo sem se ver, engenhosidade atribuída a Leonardo da Vinci).

Telhados ricos em detalhes

Skyline rico em detalhes

A famosa escada em dupla hélice, atribuída à Da Vinci: duas pessoas podem circular por ela sem se ver

Escada em dupla hélice, atribuída à Da Vinci

O castelo levou 20 anos para ser construído. O Rei o utilizou, no total, por cerca de sete semanas. Após sua morte, o castelo ficou quase um século vazio. Depois disso, recebeu alguns moradores por períodos relativamente curtos e passou mais algumas décadas abandonado. É uma alegria ver esse monumento aberto à visitação nos dias de hoje, depois de tanto desperdício 🙂

A caça como o propósito do castelo

Salão decorado com motivos de caça

A sua extensa área verde também merece ser aproveitada, seja em caminhadas, passeios de bicicleta ou tours pela reserva em veículos 4×4.

Os jardins de Chambord

Os jardins de Chambord

Não se esqueça, as visitas no Vale do Loire não se restringem aos castelos, mas sim aos seus domínios!

A cidade de Amboise

Conhecer dois castelos desse porte consumiu o dia inteiro. À tardinha, tomando o rumo de volta para Tours, para devolver o carro e pegar o trem para Paris, passamos por essa cidade e foi impossível não parar para dar ao menos uma olhada.

Ali Leonardo da Vinci viveu seus últimos anos, no Château du Clos-Lucé. Seus restos mortais se encontram na capela da principal atração da cidade, o Château d’Amboise. Os dois monumentos são abertos à visitação.

Château de Amboise

Château de Amboise

Quando chegamos o château já estava fechado, e só nos restou fazer um walking tour pelos seus arredores.

Vista dos arredores do Château

Vista dos arredores do Château

Ruelas adoráveis de Amboise

Ruelas adoráveis de Amboise –  e a Torre do Relógio

Linda arquitetura

Linda arquitetura

Aí encontramos uma brasserie que nos atraiu como um ímã para dentro. Era um final de tarde friozinho, a fome estava batendo e o lugar pareceu aconchegante demais.

Delícias de brasserie: nosso primeiro escargot na França!

Delícias de brasserie: nosso primeiro escargot na França!

Encerramento perfeito para um dia perfeito. Até então…!

O último trem para Paris

Esse não é o título romântico do livro que vamos lançar. Ele é a lembrança do nosso maior mico de viagem que aconteceu, lindamente, no Vale do Loire.

Viajantes inexperientes às vezes demoram para entender que as coisas funcionam de forma diferente em outros países. Que tudo, absolutamente tudo, precisa ser checado com antecedência quando andamos por terras nunca antes desbravadas. Mas nada nos tirava da cabeça que seria fácil abastecer o carro, entregá-lo de volta na locadora e pegar o último trem de volta para Paris, lá pelas 22:00 ou 23:00. Imaginem o tamanho da nossa decepção quando encontramos uma estação completamente vazia e às escuras!

Pausa de cinco minutos para o mimimi e a próxima providência foi encontrar o Ibis mais próximo, s’îl vous plaît. E graças ao GPS ele existia, a algumas quadras da estação. Depois do check-in, pausa de mais cinco minutos para o segundo mimimi da noite (da parte feminina deste blog), justificado pela falta de mudas de roupa e de um estojo para lentes de contato. Nada que tampinhas de refrigerante não resolvessem, e viva a criatividade humana (da parte masculina deste blog) 🙂

A manhã seguinte foi tensa. Tomar café e ir correndo para pegar o primeiro trem para Paris, não desperdiçando nem mais um minuto com essa mudança de programação. Golpe direto na carteira: trens em horário de pico possuem tickets (muito, muito, muito) mais caros.

Então esse foi o saldo da aventura: perda de uma diária de hotel em Paris, acréscimo de uma diária de hotel em Tours, tickets de trem mais caros na volta. É isso aí, viagens são feitas de glórias e perrengues. Mas nem precisamos dizer que valeu, e muito, a pena!

Como seria uma próxima vez

Sem dúvida faríamos novamente a dobradinha TGV+carro alugado em Tours. Dirigir pelo Vale é uma experiência inesquecível! Passaríamos ao menos duas noites por lá, hospedados em algum castelo charmoso – afinal há muitas opções interessantes e às vezes mais em conta que os hotéis de Paris. O site Conexão Paris tem muitas dicas de lá. Os castelos que citamos são imperdíveis; numa outra viagem, desfrutaríamos mais dos seus jardins (um piquenique, um passeio de bicicleta, longas caminhadas). E sem dúvida consideraríamos o passeio de balão. Se quiser saber mais esse passeio, recomendamos também este post do Blog Nós no Mundo.

Maiores Informações:

Château de Chenonceau

Château de Chambord

A cidade de Amboise

Anúncios

Sobre Pati Venturini

Engenheira, blogger, chocolatière na Méli-Mélo Chocolat e co-autora do blog de gastronomia e viagens De Garfos e De Quartos.
Esse post foi publicado em França, Vale do Loire e marcado , , , , . Guardar link permanente.

18 respostas para Um bate-volta ao Vale do Loire

  1. Esse jardins me deixam de boca aberta. Que coisa mais linda!
    Adorei a cozinha também, apesar de parecer meio escura, hehehehe.
    Ótimo post, pra variar!

  2. Boia Paulista disse:

    Oi, Pat e André. Tudo bem? =)

    Seu post foi selecionado para a #Viajosfera, do Viaje na Viagem.

    Dá uma olhada em http://www.viajenaviagem.com

    Até mais,
    Natalie – Boia Paulista

  3. Oi querida!!!
    Adoro ler os seus posts!!!! Fiquei muito feliz com a menção ao Nós no Mundo!! 🙂
    E que aventura essa de vcs!! Teria ficado desesperada ao chegar na estação vazia!!!
    Como vc disse, um bate-e-volta é mesmo pouquíssimo tempo para conhecer o Valle do Loire. Achei até que vcs fizeram bastante coisa para tão pouco tempo!
    Se não me valha a memória, ficamos 2 ou 3 noites por lá. E olha não deu tempo de fazer tudo…
    Entre as atrações imperdíveis, eu elencaria: hospedar-se num castelo, jantar no restaurante La Cave ( http://www.restaurant-la-cave.com ) e andar de balão!!! Com ou sem a emoção no momento da aterrisagem, o balão foi incrível!! rsrs
    Bjs, Anna

    • Hahaha! Foi exatamente como fiquei, Anna… Desesperada! Mas acho que ficaria ainda mais desesperada com essa aterrissagem emocionante de balão que vocês fizeram!! 😀
      Anotadíssima a dica do restô! E não precisa agradecer a menção, é um prazer recomendar um blog tão bom como o teu!! Sabe que sou fã, né? 😉
      Bj
      Pati

  4. Hahaha, adorei os #mimimi. Parabéns, uma viagem de sonho! Ótimo relato e texto! 🙂

    • Sílvia, agora é até engraçado contar o mimimi, mas na hora…! OMG! 🙂
      Adoramos a visitinha! Que bom que gostou do post, vindo de ti é uma honra! 😉
      Bj
      Pati

  5. Ui, eu quis dizer “ótimo relato e fotos”!!!! 😉

  6. Felipe Severino disse:

    Olá Pati Venturini
    Gostei muito dos seus relatos! Queria tirar algumas dúvidas, pois pretendo fazer o mesmo passeio. Para alugar um carro em Tours, a carteira de motorista brasileira serve? Ou é obrigatório a carteira internacional? Vcs encontraram fácil locadora de carro em Tours? Quanto foi a diária? Ouvi dizer que encontrar posto de combustível é difícil. É verdade? Aguardo as respostas, pois viajo à Paris amanhã! 😀 Abraços

    • andremazeron disse:

      Oi Felipe, obrigado!

      Eu tenho a carteira internacional, tínhamos sido informados da obrigatoriedade dela. Nunca nos pediram, nem no momento da locação. Eu recomendo fazer, já que é fácil e tem a mesma validade da carteira nacional, mas no teu caso não dá mais tempo. Diária lá é mais barata que no Brasil, mas fica a dica de reservar por telefone daqui do Brasil, você pode conseguir tarifas melhores que as da internet. Um amigo nosso acabou de voltar de lá, ficou perto de 2 semanas com um carro econômico e gastou na ordem de uns R$1.500 de aluguel. Posto de gasolina é realmente um stress, mas isto é mais à noite porque tem muita coisa fechada. Programe-se para abastecer o carro de dia, e não será difícil achar um posto com o GPS.

      Boa viagem!!!

      André

  7. Verônica disse:

    Olá! Parabéns pelo post, de grande utilidade! 🙂
    Vou fazer esse passeio com marido e filhinha agora em maio… Estou enrolada com a questão de comprar bilhetes de trem com antecedência, a SCFN não aceita meu cartão, estou achando as tarifas da Raileurope caras por causa das taxas, enfim… Pelo que vi vcs compraram os bilhetes na hora né? Tirando o stress da volta, rs, pra ir foi tranquilo? Vcs chegaram cedo na Gare D’Austerlitz e encontraram fácil bilhetes? Vc se lembra qto pagou? Foi o Intercités ou TGV?
    E quanto ao carro… Achou tranquilo dirigir por lá e chegar nos castelos? Meu marido está meio receioso, mas li vários relatos de que é muito mais proveitoso fazer os passeios de forma independente né?
    Muito obrigada desde já… Verônica

    • Oi Verônica
      Que bom que achou o post útil! Respondendo às tuas perguntas. Nós chegamos cedo na gare e compramos os bilhetes na hora, sem problemas. Não esqueça de validá-los nas máquinas amarelas antes de embarcar. Era um TGV para Tours, não recordo a tarifa, só posso te dizer que é mais cara que a dos trens comuns. Atenção aos horários de pico, fica mais cara ainda.
      Dirigir pelo Vale do Loire é tranquilíssimo e um lindo passeio. Não esqueça que estamos falando da França. Quem encara o trânsito do Brasil, com estradas ruins, má sinalização e vários outros problemas, vai achar que chegou ao paraíso. Aluguem um carro com GPS e aproveitem!
      Abraço
      Pati

      • Verônica disse:

        Patrícia, muito obrigada pelo retorno!!!
        Estou decidida a comprar na hora mas um Intercités, que tem tarifas mais baratas… 🙂

        Você me tranquilizou agora, quanto à dirigir por lá… Meu marido tem horror à trânsito, mas gosta de dirigir em estradas de interior… Poderíamos comparar as estradas do Vale do Loire às nossas de interior porém melhores e mais bem sinalizadas? E tb li que vcs acharam dificuldade quanto aos postos, mas nos centros das cidadezinhas têm? Em aplicativos tb devem indicar não é?

        Muito obrigada novamente!!! 🙂

      • Oi Verônica
        Como eu disse, as estradas deles são infinitamente melhores que as nossas. Mas se o teu marido tem tanto receio assim, talvez devessem avaliar outras alternativas. Afinal viagem tem que ser pra se divertir, não uma fonte de stress!
        Abraço
        Pati

  8. Isa disse:

    Olá! Desculpe se já explicou nos coments anteriores, dei uma lida por cima…não entendi porque perderam o trem da volta…chegaram depois do horário do último trem ou o último trem saiu mais cedo?

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s